"O texto que se segue
é uma história das muitas histórias que
a vida me contou (daquele jeito que só a vida conta.)"
Na sétima serie encontrei o professor de português mais esquisito do mundo. Ele não escrevia no quadro, tinha um problema no braço. Naquele ano jurou que nos ensinaria a ler, creia no absurdo ele afirmava contra o nosso orgulho adolescente que nos éramos analfabetos.
Só por isso já de primeira tornou-se inimigo de uma parcela considerável da turma. Ele ensinava muito bem. E realmente provou por A+B que nós ilustríssimos alunos da sétima serie não sabíamos ler, não sabíamos ler sobre política, sobre música, sobre arte, sobre coisas que não pudessem ser soletradas dentro do nosso alfabeto de 26 letras.
Mas tudo isso não fazia dele, o que ele significou para nos. É nesse ponto entra a didática da folha de papel, numa discussão interna que estávamos vivendo na liderança estudantil ele ousou fazer algo que não era pratica dos professores, se meteu em nossas picuinhas particulares. Então explicamos que o problema era que o líder da sala estava servindo aos interesses dos professores e não ao dos alunos que o elegeram - qualquer semelhança com a politica nacional é mera semelhança mesmo - e a briga tava armada e já se preparava uma outra eleição.
Ele com toda a paciência virou para o líder da sala, mandou que sentássemos. Pegou um papel oficio e sacudiu no ar, perguntou se conseguíamos ouvir - o barulho não deixou - fez de novo, e de novo até que conseguimos ouvir. O papel oficio estalava noa r, disse que éramos como o papel novinho, faz barulho no ar e o sistema não gosta de barulho. Nesse momento ele amassou todo o papel e abriu de novo esticando, perguntou: - Esse papel ainda serve?
- pra escrever serve!! - respondemos.
Ele sacudiu o papel novamente no ar, não fez sequer um ruído, Ele se virou para o líder da classe e disse:
- você também quer ser um papel amassado?Serve pra escrever, mas não é igual ao papel novo.
Sinal tocou, e não falamos mais sobre isso. Mantemos o líder que de súbito começou a lutar pelas nossas causas. Não sei se entendemos o que Walter quis dizer com aquela folha de papel, mas o que ele disse a cada um foi interessante. Creio que Ele é a prova cabal que sem quadro, giz, retro, ... e toda uma serie de outros meios tecnológicos ( que são muito úteis mas não essenciais) pode-se ter a atenção dos alunos, envolve-los de tal maneira que se consigo obter deles algo mais que o conteúdo.

